Brasil espera acabar com estoque de mercúrio até 2020

Brasil espera acabar com estoques de mercúrio até 2020
 
Márcia Bizzotto
de Bruxelas
    
20061027205022061027riocorrientes.jpgRio contaminado por mercúrio e outras toxinas na Amazônia peruana (Arquivo)
Os estoques brasileiros de mercúrio deverão chegar ao fim até 2020, afirmou nesta sexta-feira a gerente da Secretaria da Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, Sérgia de Souza Oliveira, durante a Conferência Internacional sobre Mercúrio, realizada em Bruxelas.
A expectativa brasileira se baseia no anúncio da União Européia, nesta quinta-feira, de que proibirá toda a exportação de mercúrio de seus 25 países membros a partir de julho de 2011.

Com essa medida, a Europa deixará de ser o maior exportador mundial do metal, responsável por mil toneladas do total de 3,6 mil consumidas anualmente em todo o mundo.

Também deixará de ser o maior fornecedor de mercúrio para as indústrias brasileiras, que no ano passado importaram 43,3 toneladas do metal, a maioria procedente da Espanha, primeiro produtor da UE.

“A partir da interrupção do fornecimento, a indústria brasileira que ainda utiliza mercúrio tende a se adaptar, a buscar novos métodos de produção, também para seguir as novas tendências mundiais em produção industrial”, Oliveira explicou à BBC Brasil.

Apesar da proibição européia dentro de cinco anos, os Estados Unidos, segundo maior produtor mundial de mercúrio, não têm dado sinais de que pretendem seguir o mesmo caminho.

As exportações americanas, somadas ao mercúrio que ainda poderá ser reciclado, deverão manter o comércio do metal no mundo.

“Ainda assim, os estoques brasileiros devem se esgotar até 2020″, afirma Oliveira. “Se não há oferta, o preço subirá e será mais vantajoso buscar alternativas. Acredito que essa é a melhor estratégia para banir a utilização do mercúrio: acabar primeiro com o fornecimento.”

Danos

O mercúrio é um metal pesado altamente tóxico, que pode causar danos generalizados ao sistema nervoso. Diversos estudos atestam que altas concentrações do metal no organismo resultam em deficiências motoras e visuais, na capacidade de atenção e de comunicação e nos sistemas cardiovascular, imunológico e reprodutor.

A contaminação se dissemina facilmente, pois o metal, além de impregnar-se na terra, alastra-se pelo ar e pela água.

Segundo um estudo do Programa de Meio-Ambiente das Nações Unidas (UNEP, em inglês), o mercúrio utilizado até 1989 na mineração de ouro na bacia do rio Amazonas, por exemplo, “causou impactos muito mais longe, como visto nas terras alagadas do Pantanal e em partes da Bolívia e do Paraguai”.

O texto indica que os habitantes da região do Amazonas que consomem peixe são o segundo grupo humano do mundo com maiores concentrações de mercúrio. O primeiro é composto por mulheres que utilizam sabão de mercúrio.

Custos

Atualmente, a utilização de mercúrio no Brasil só é permitida em equipamentos hospitalares e eletrônicos e na produção de cloro em fábricas instaladas até 2000. O uso em medicamentos foi proibido em 2001 e em 2006 o governo proibiu também o uso em produtos cosméticos e de higiene.

“O problema é que há setores que não respeitam a proibição e se servem do contrabando, setores difíceis de controlar”, diz Oliveira, citando a mineração como exemplo.

Na Europa, a proibição na exportação do metal custará cerca de 1,5 milhão de euros anuais, necessários para cobrir custos de armazenamento dos excedentes e de substituição do mercúrio atualmente utilizado em equipamentos e em processos industriais.
 

Comentários